Conversando com profissionais da área de produção de vídeo e cinema encontrei um clima pesado no mercado áudio-visual. Não sei se isso extende-se à outras capitais, acredito que sim.
         Há uma insatisfação geral pelo atual quadro em que se encontra o mercado. Encontra-se de tudo, há os que culpam os novatos, os que culpam as agências, os que culpam os clientes e os que culpam tudo e todos.
         No meu entender é um tanto mais complexo. É parte de uma história que vem se desenrolando ao longo das últimas décadas.
         Não podemos dizer que existe uma culpa, existe um processo, alguns estão sendo pegos desavisados, outros já se preparam para o que está por vir.
         Ter uma produtora nos idos de 1980 era coisa de cinema, o mercado era muito caro e ter acesso ao domínio disso então!. Cursos em universidades nem pensar, os clientes sabiam disso e aceitavam o custo, além de associar sua marca a uma vanguarda, tal como ter "serviço informatizado" no final dessa década. Quem não lembra dos comerciais onde o locutor enfatizava "atendimento informatizado", nossa!.
         O início da década de 90 abre uma nova era tecnológica que atinge tudo que se pensava em torno do mercado áudio-visual. Minúsculos vídeos a 15fps podiam ser vistos num computador, surgem as primeiras handcams e com elas os novos apaixonados por vídeo. Alguns modêlos de VHSs adotam recursos de edição e áudio-dub, tudo isso no mercado doméstico.
         Os apaixonados por vídeo derivados desta experiência entendem que tem condições de trabalhar e ganhar com isso. Surgem os semi-profissionais ou mercado consumer com mais força. Os que se identificam de fato, tornam-se novos talentos que vão migrando para mercados mais pesados e de produção broadcast.
         Até então, o cliente, mesmo leigo, conseguia observar claramente as diferenças obtidas com um nível ou outro de produção. Uma das chaves desse importante detalhe era a captação. Gritante as diferenças de uma captação VHS / SVHS / Hi-8 na época para uma Betacam, especialmente se contasse com um bom monitor. Ter acesso a uma betacam já é indício que bons tripés e nível de especialização do operador estão mais avançados, imagens corretamente enquadradas e movimentos sinuosos também destacam-se. 
         A virada de século trouxe tecnologias de câmeras domésticas que alcançaram tal qualidade e definição que ficou difícil pelo resultado da captação por si, definir que nível de produção estava por tráz. A olhos de leigo é tudo a mesma coisa. Essa forma de percepção atinge em cheio o custo x benefício das produções. As produtoras inchadas com investimentos altíssimos e experiência acumulada diante de um novo e grande mercado que surgiu rapidamente colocando custos, que pra quem está começando e portanto, ainda vai descobrir  os custos ocultos envolvidos, está satisfatório e para alguns clientes um milagre da redução de custos.
         No governo Lula, grandes incentivos foram dados para a cultura e o áudio-visual, projetos e mais projetos nas periferias promovem a educação em cinema e vídeo. Adivinha em que mercado estes alunos estarão inseridos?. Não há dúvidas que muitos deles se tornarão talentos e que bom que seja assim.
         É um processo sem volta e observo que alcança muitas outras profissões. Todo dia surgirão novos profissionais para disputar com voce um espaço. Não adianta complô, cartel ou bloqueios. Produtores de Natal atenderão clientes de Brasília ou da Espanha, concorde ou não.
         Esse momento é de uma "tsunami", clientes e prestadores de serviços estarão emaranhados numa rede de decisões de custos x benefícios que logo voltarão a estar claros. O cliente saberá quando deve investir no pequeno, médio e grande para obter o resultado que deseja. O produtor saberá quanto custa o seu nível de trabalho que sempre estará acima ou abaixo de alguém. Sim, porque diferente de um produto físico, um  TV de 29", marca tal, modelo tal, o resultado de um produto áudio-visual depende da sensibilidade, experiência e CONHECIMENTO dos profissionais envolvidos.
         Como previsto, estamos na era da informação, do conhecimento, é o investimento que precisa ter para vencer nesses novos tempos.
 
 
Publicado no "Ponto de Vista" do portal da Faculdade de Ciências Empresariais e Estudos Costeiros FACEN
 
 
Italo Valerio